Aumento da expectativa de vida muda abordagem sobre o envelhecimento
Viramos a página do século XX com a notícia de que o mundo já não é tão jovem quanto se imaginava. O crescente aumento da expectativa de vida foi o responsável pela mudança nas previsões, surpreendendo com uma verdadeira "revolução da terceira idade". Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), 7% da população brasileira - cerca de 13,5 milhões de pessoas - têm mais de 60 anos. Até 2020 serão mais de 30 milhões, provavelmente a sexta maior população idosa do mundo.
Segundo a drª Claísa Farneda Dias dos Reis, médica geriatra, o envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. A mudança dos indicadores de desenvolvimento, a melhora nas condições de saneamento básico e controle das doenças transmissíveis, a contenção de afecções crônicas e o acesso à assistência médico-hospitalar têm colaborado para o aumento na expectativa de vida.
Envelhecer fisicamente significa passar por um processo degenerativo crescente dos sistemas e órgãos do corpo, embora esta definição estática e retrógrada esteja sendo substituída por uma visão mais aberta e dinâmica. Envelhecer, nos tempos que se iniciam, deveria realmente significar uma maneira de enfrentar os anos com mais autonomia e cada vez menos incapacidade, lutando sempre pela preservação da qualidade de vida", ressalta.
Dentro desse conceito, a médica destaca ser imprescindível que, tanto a Medicina quanto a sociedade estejam preparadas para melhor atender as necessidades e particularidades da população idosa.
A proposta de um atendimento geriátrico envolve uma abordagem médica ampla e, ao mesmo tempo, minuciosa, integrada à ação multidisciplinar. O paciente é visto como um todo, o que possibilita a atuação na prevenção, controle e tratamento de doenças, assim como no biopsicosocial, visando a conquista de um envelhecer saudável", argumenta.
Segundo a drª Claísa, na sua especialidade, a Geriatria, o paciente é visto como um todo, o que torna difícil a especificação de doenças ou patologias que a especialidade trata, assim como a delimitação por áreas ou sistemas.
No entanto, sabe-se que em termos de saúde pública, o aumento da população idosa acarreta maior número de queixas crônicas e degenerativas, particularmente relacionadas aos sistemas cardiovascular, osteoarticular, neuropsiquiátrico e digestivo. Um fato importante e muito frequente nesta população é a coexistência de vários diagnósticos, não sendo raro encontrar-se mais de 5 ou 6 patologias no mesmo paciente", informa.
Ela também lembra que o médico geriatra tem sua formação voltada para o envelhecimento humano e, embora seja claro que esse envelhecimento ocorra gradativamente, acompanhando todas as fases da vida, é à partir dos 60 anos de idade que, geralmente, as alterações físicas se tornam mais evidentes e limitantes. Da mesma forma, também aumentam as possibilidades de se desenvolver algumas doenças ou de se verificar o agravamento de outras já existentes. Na verdade, não há regras ou perfil definido de pacientes para a geriatria. Deve-se levar em consideração, no entanto, o bom senso e o que realmente se espera de um atendimento geriátrico.
FONTE DA JUVENTUDE
A drª Claisa lembra que receitas prontas para uma velhice saudável certamente não existem, uma vez que cada pessoa traz em sua história características próprias, herança genética e um estilo de vida. Entretanto, a especialista lembra que muitos fatores são capazes de interferir no processo do envelhecer e podem ser modificados a tempo de torná-lo mais agradável e menos assustador, tendo sempre como objetivo a qualidade de vida.
Está mais do que provado que a atividade física regular e bem orientada traz muitos benefícios, assim como a alimentação balanceada, qualidade do sono, evitar o fumo, álcool e exposição excessiva ao sol, não abrir mão do lazer e das atividades sociais. Além disso, como não poderia deixar de ser, os exames preventivos e periódicos, as imunizações (vacinas), as consultas de rotina e o acompanhamento médico de doenças crônicas, sempre serão um capítulo importante, não apenas na prevenção, como no acompanhamento do envelhecer saudável", avalia.
Para muitos, esse envelhecer saudável passaria pelo uso de alguns modismos, como o uso nas vitaminas. Mas na visão da Geriatria, tanto o uso indiscriminado de vitaminas, quanto de qualquer outra medicação, deve ser avaliado com cuidado.
Sabe-se que o idoso é mais susceptível aos efeitos dos medicamentos, assim como a superdosagens, efeitos colaterais e interações medicamentosas. A medicina tradicional reconhece a participação das vitaminas e dos radicais livres no processo de envelhecimento. No entanto, ainda se tem poucas evidências científicas a esse respeito", alerta a médica.
Ela lembra que, em alguns casos, existe a necessidade de se indicar uma complementação diária de vitaminas, mas sempre partindo de uma investigação criteriosa e do diagnóstico prévio de alguma patologia. Jamais indiscriminada e aleatóriamente.
A médica salienta que, de uma maneira geral, acredita-se que uma dieta alimentar balanceada seja plenamente capaz de suprir as necessidades básicas diárias de vitaminas que o organismo precisa.
CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES
Quando se fala em idosos um fato importante, e que muitas vezes é negligenciado por parecer secundário, é a adequação do idoso ao seu meio. Segundo a drª Claísa, existem particularidades e orientações que passam desapercebidas, por serem simples, mas que são capazes de evitar grandes problemas, e que devem ser observados:
Medicamentos - cuidado com trocas, auto-medicação, esquecimento, alteração de dose, erros decorrentes da alteração de visão.
Prevenção de quedas - retirar tapetes da casa, colocar corrimão em escadas e apoio para o banho, luz acesa à noite no banheiro, não deixar móveis ou objetos no meio dos cômodos, evitar caminhar com chinelos.
Consultas médicas de rotina - incluindo observação da visão e audição, óculos e aparelhos auditivos se necessário.
Alimentação/nutrição - qualidade e quantidade e horários.
Exercícios físicos - adequados e orientados.
Imunização (vacinas) - anti-pneumocócica, gripe.
Convívio social - não deixar que o idoso fique isolado, o que implica em maior risco de depressão e progressão de quadros demenciais
RECADO
A geriatra lembra que, ao longo dos anos, o ser humano utilizou todo o tipo de artifício, racional ou místico, para prolongar sua existência. No entanto, deparou-se com a certeza frustrante de que a fonte de juventude eterna não existe.
A genética, na sua imensidão de possibilidades, sem dúvida representa o que se tem de mais próximo no futuro do combate aos problemas da idade. Entretanto, devemos compreender e aceitar que o envelhecimento é um processo biológico natural e não é uma doença e que, principalmente, ser velho não é ser necessariamente doente. A velhice pode representar uma fase muito agradável da vida, que muitas vezes o preconceito e o medo, infelizmente, impedem de enxergar."