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  Parassonias revelam o lado doente do sono

O sono é alvo de estados doentios, as chamadas Parassonias, definidas como fenômenos indesejáveis que ocorrem ou que se tornam mais intensos durante o sono, no começo ou meio da noite, e que podem ser acompanhadas por manifestações clínicas motoras, autonômicas, mentais ou combinações destas. Os problemas podem causar transtornos para o paciente e para sua família, a primeira a perceber a existência de alguma anormalidade. O especialista sempre deve ser procurado. O dr. Flávio Alóe, médico neurofisiologista clínico do Centro Interdepartamental para os Estudos do Sono, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, informa que as principais parassonias incluem os episódios conhecidos como sonambulismo, enurese, despertar com confusão mental e terror noturno.

Os episódios têm características específicas. Segundo o dr. Flávio Alóe, cada caso precisa ser cuidadosamente analisado, para a definição da patologia e do tratamento, que se divide entre farmacológico (com uso de drogas, geralmente os benzodiazepínicos ou antidepressivos) e não-farmacológico, que inclui algumas mudanças de hábitos e psicoterapia. As parassonias têm diversas causas e alguns fatores desencadeantes, que devem ser evitados nos pacientes suscetíveis: privação de sono, estresse, ruído ambiental, ingestão de bebida alcoólica ou outras drogas depressoras do sistema nervoso central.

"Em alguns casos específicos, como o sonambulismo, todo o esforço deve ser feito para se evitar risco para o paciente, retirando do quarto objetos perigosos, trancando portas ou janelas", orienta.

O especialista lembra que o relato da família é de fundamental auxílio na detecção de alguns desses problemas. Por isso, ele chama a atenção para a observância de alguns sinais. Devem procurar ajuda pacientes que mexem exageradamente seus braços ou pernas, apresentam movimentos corporais ou comportamentos estranhos durante o sono; os que se movimentam enquanto sonham, como se quisessem encenar o conteúdo do sonho; os que já se feriram ou feriram alguém durante o sono; os que apresentam quadro de sonambulismo ou terror noturno com gritos altos; aqueles em que as pernas apresentam-se agitadas (irrequietas) ou começam a contrair ou movimentar-se quando ficam sonolentos tanto à noite quanto durante o dia; os que comem sem acordar completamente durante a noite.

As respostas a esses questionamentos podem ser uma boa ajuda no diagnóstico dos fenômenos, que também podem exigir exames mais sofisticados. Conheça as características de alguns deles:

Sonambulismo - o paciente pode sentar-se na cama, levantar e até andar de olhos abertos, com uma expressão facial vaga e distante, voltando para a sua cama ou permanecendo em outro ambiente. Os episódios geralmente surtem durante o primeiro terço da noite e o paciente pode se mostrar confuso quando. O problema atinge até 17% da população entre 4-12 anos de idade, desaparecendo ao redor de 10 anos. Entre os adultos, ocorre ocasionalmente em 2% a 3%.

Terror noturno - despertar súbito, com o paciente geralmente emitindo um grito estridente e agudo, sentando-se na cama com fácies de extremo terror e pânico. Manifestações autonômicas, como taquicardia, taquipnéia, vermelhidão da pele e sudorese são intensas. Atividade motora brusca, como bater na parede ou correr em torno do quarto pode resultar em lesão corporal ou dano material. Há amnésia parcial ou total para o episódio, que dura de cinco a 20 minutos sendo que o retorno ao sono é imediato e há amnésia para o evento.

Despertar com confusão mental - se caracteriza por fala arrastada, amnésia ao evento e sudorese de grau variável. Comportamento inadequado, choro inconsolável e agressividade, esta última principalmente se a criança for manipulada, podem estar presentes. É mais comum em crianças do que em adultos. Durante o episódio, o paciente deve ser guiado gentilmente para retornar à cama sem despertá-lo. Entretanto muitos pacientes irão ignorar tais esforços e estímulos vigorosos devem ser evitados.

Distúrbio rítmico do movimento - considerado um distúrbio do sono da infância, com registro de movimentos estereotipados que ocorrem na transição entre a vigília e o inicio do sono. Os movimentos acometem pescoço e cabeça iniciando-se aos 9 meses de idade e raramente persistem após os 4 anos de idade. Persistência em idades mais avançadas está associada à disfunção cerebral como autismo ou retardo mental. Algumas variações deste fenômeno podem incluir fenômenos visuais (luzes, alucinações visuais fragmentadas), auditivos (martelar, estalidos) ou somestéticas (sensação de flutuação ou leveza).

Sonilóquio - é falar dormindo é muito comum, podendo ter um componente genético. Não tem significância clínica ou psicológica.

Distúrbio comportamental do sono REM - um distúrbio do sono com comportamento motor intenso, com vivências do sonho, podendo causar lesões no paciente e em terceiros, como também danos materiais. Pode ser a manifestação inicial de doenças neurológicas degenerativas como Doença de Parkinson ou Doença de Alzheimer. As manifestações de sono podem anteceder em até 8 anos o início dos sintomas no caso das demências.

Ereção dolorosa associada ao sono REM - ataques de dor peniana intensa com ereções durante sono REM, de etiologia desconhecida, que acomete homens de meia idade, queixando-se de despertares recorrentes com ereções parciais ou completas, dor e desconforto. Pode haver queixa relacionada a interrupção do sono, com irritabilidade, sonolência. Pode estar relacionada com redução da atividade sexual.

Pesadelos crônicos - sonhos de conteúdo desagradável, que levam a um despertar sono REM, geralmente acompanhados de taquicardia, sudorese e diferentes graus de ansiedade e dificuldade para retornar ao sono. Quando freqüentes, acarretam em queixas relacionadas à interrupção do sono, como irritabilidade e sonolência diurno.

Enurese noturna - micção recorrente involuntária durante o sono. Na enurese primária, há ausência de controle vesical após os 5 anos de idade na ausência de outras doenças médicas. Na enurese secundária, ocorre reaparecimento do fenômeno após um período de 3 a 6 meses de controle vesical. O controle vesical noturno se completa até o 5o a 6o ano de vida da criança. A ausência de controle miccional após esta idade é considerada anormal. O problema acomete mais meninos (25%) do que as meninas (15%) na idade de até de seis anos. Mesmo em faixas etárias maiores (12 anos) a prevalência é de 8% e 4% respectivamente e 2% de indivíduos com 18 anos.

Bruxismo - pode ser definido como movimentos involuntários rítmicos de cerrar ou ranger os dentes decorrentes de uma atividade excessiva dos músculos masseter e temporais, ocorrendo geralmente durante o sono ou na vigília. Atinge de 15% a 22% na população geral e é mais comum entre 10-20 anos de idade. Má oclusão dentária, estresse, alteração da neurotransmissão dopaminérgica e componentes genéticos estão envolvidos.

Distúrbio alimentar noturno - história de episódios noturnos com variados graus de amnésia, com ingestão descontrolada de alimentos, principalmente de doces e massas. A maioria dos pacientes não prepara os alimentos podendo ocorrer ingestão de comidas congeladas, cruas, estragadas ou excessivamente quentes. Ao problema podem estar associados outros transtornos do sono e transtornos psiquiátricos (47% dos casos).


 
   
   
     
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